VKHUTEMAS: O FUTURO EM CONSTRUÇÃO (1918-2018)

Uma ocupação no galpão das oficinas do SESC Pompéia que traz para 2018 cerca de 300 obras produzidas por 75 artistas, arquitetos e designers (mestres e alunos) das escolas soviéticas SVOMAS, VKHUTEMAS e VKHUTEIN - cursos superiores de arquitetura, cerâmica, metal, madeira, têxtil e poligráfica que tinham como objetivo preparar a população um novo mundo, formar uma nova sociedade, fundadas por Lenin em 1918 pós revolução soviética de 1917.

Tive a linda oportunidade de ser uma dos nove designers e artistas de 2018 que reproduziram as obras do ateliê têxtil. Um trabalho intenso e emocionante, 100 anos depois desenhos, projetos e sonhos saíram do papel.
 

Compartilho aqui as etapas dessa reconstrução e como foi minha experiência nesse processo.

 

No fim de novembro de 2017 tivemos nosso primeiro encontro, onde cada um dos nove designers recebeu um envelope com as estampas que iriam reproduzir, momento de muito ansiedade, já conhecia a maioria das estampas propostas e sempre tem aquela mais queridinha que a gente fica na expectativa de receber. 

Meu envelope veio com essas 4 surpresas:

As estampas Metalurgia, Cinética e Colheita são desenhos coloridos com aquarela, não se tem registro delas impressas na época. A Industrial, pela foto é possível perceber que é um tecido impresso, não tenho certeza sobre a técnica de impressão utilizada.

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Metalurgia - Varvára Stepánova 1923

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Cinético - Varvára Stepánova 1925

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Industrial - Raisa Matvéeva 1929

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Colheita - Maria Chúikina 1930

Depois das fotos recebidas, é hora de encontrar aonde estão os módulos, os padrões que se repetem em grade e assim vão preenchendo a superfície estampada.

Encontrei os módulos, identifiquei as repetições e os reconstrui. Como as artes seriam escalonadas, optei por utilizar programas gráficos desde o início do processo, o que ajuda a alterar os tamanhos sem perder as proporções. As medidas finais não estavam definidas, então montar digitalmente tem esta vantagem de alterar as medidas com praticidade.

Uma questão simples para quem trabalha com qualquer tipo de impressão, mas que vale ressaltar sempre, é que a cor da superfície que vai ser impressa também conta como uma cor da estampa, mas como ela já está na superfície ela aparece no final da impressão, depois de todas as outras cores impressas. Nesse projeto, a superfície impressa era lona de algodão cru, então para todas as artes, aonde teria branco, são áreas que não não preenchidas. 

Depois do módulo encontrado, é hora de marcar a grade de repetição. Essa grade é marcada na superfície que vai ser impressa, é a guia para que os módulos se encaixem. Quando criamos uma estampa do zero, ela já é definida na hora da criação, é o que define o movimento que a estampa vai ter, nesse caso, ela precisou ser encontrada na estampa que já existia.

Com layouts impressos em papel, reunimos todos os artistas e designers da equipe, definimos juntos as proporções de cada uma das estampas de acordo com os layouts das bandeiras. As medidas foram pensadas de acordo com a exposição, considerando visibilidade, a relação com os demais módulos, para que tivessem harmonia entre eles e respeitando as propostas dos designers que as criaram.  

Medidas definidas, hora de de começar as preparação para impressão em pochoir, técnica escolhida para fazermos a impressão no tecido. O pochoir é uma técnica de impressão manual, feita com stencils, para cada cor um stecil, mas dependendo da estampa, pode ser preciso mais de um stencil por cor. Nesse caso, as estampas não podiam ter as pontes de estencil. Pontes são emendas muito utilizadas no stencil que ajudam a sustentar a matriz recortada sem que o desenho destaque por inteiro, coloquei abaixo uma imagem de um stecil meu para ilustrar:

As pontes são todos esses "linhas" impedindo que todo o miolo do desenho se destaque.

É uma escolha do artista ou designer na hora de criar se a estampa terá ou não pontes aparentes no final da impressão, mas como as peças originais não tinham marcações de pontes, a escolha na hora de preparar para o pochoir foi por fazer sem pontes. Na hora de separar as cores para impressão, a proximidade de cada elemento da mesma cor pode deixar a matriz com ligamentos muito justos e que podem não resistir às passadas de rolinho, isso também pode aumentar o número de matriz por cor para garantir não só a durabilidade da matriz como também uma melhor qualidade de impressão.

Na estampa Metalurgia da Stepánova foi preciso ter duas máscaras para o preto, a máscara que formou as esferas, preenche os vazados que ficou entre os triângulos, sem deixar linhas branca entre eles. 

O fundo da estampa Colheita da Chuikina é todo azul, para cobrir toda a área do fundo, foi preciso duas máscara também, os encaixes delas impressas forra todo o fundo sem deixar espaços brancos entre eles, somente os brancos que fazem parte do desenho da estampa.

O preto da estampa Cinético da Stepánova precisou de três máscaras, os recorte dos losangos emendaria com os das linhas e destacaria todo o miolo, e as linhas também intercalei para que elas não ficassem muito próximas umas das outras na parte próxima ao encontro com o losango, isso deixaria a máscara muito delicada, podendo rasgar e também teria menos controle ao passar o rolinho.

Com todas as cores de todas as estampas separadas e máscaras definidas, imprimi cada uma em tamanho real e fui pra mesa de luz. Cada máscara por vez, recorte com estile de todas. Antes de começar a impressão, a lona é hidratada, vai pra água pra sair toda goma e depois passada/engomada à ferro. Essa preparação da lona é muito importante para ajudar na fixação da tinta e para que a lona fique lisa e uniforme para receber a aplicação da tinta. Feito isso, hora de passar a grade pro tecido, como falei anteriormente, ela serve de marcação para o encaixe do módulo, no módulo tem que ter marcações da grade de referência, colocando o stencil em cima, e as marcações de grade justas uma em cima da outra, a máscara estará posicionada no lugar correto para a impressão. Uma boa dica e utilizar um marcador que apague depois, como os que apagam com água ou ferro quente, mas cuidado pra não passar o ferro direto na tinta. Agora sim, tudo preparado pra impressão acontecer. Estampa por estampa, máscara por máscara. As bandeiras finais tinham as medidas 1,10 x 1,70 m, duas peças de cada, somente a Cinética que foi uma peça única, para as bandeiras e mostruários também uma de cada de 1,10 x 0,50 m para o mostruário.

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MOSTRUÁRIOS

BANDEIRAS

CRÉDITOS NA EXPOSIÇÃO

ARTISTAS E DESIGNERS DO ATELIÊ TÊXTIL 2018 E CURADORES (nov/2017)

Foto: Marco Antônio

Da esquerda pra direita, de cima para baixo: 

Paulo Pinheiro, Neide JAllageas (Curadora), Celso Lima (Curador);

(eu) Fernanda Robles, Bárbara Penaforte, Gabriela Sayuri, Cláudia Gil, Eduardo Sancineti;

Luisa De Carli, Maria Cau Levy.

Mais Diego Sampaio não presente.

whatsapp | +55 11 948153372

Foto "Background" Lucila Hertzriken

 

© Fernanda Robles - 2018 | ALL RIGHTS RESERVED

All images are copyright © Fernanda Robles